— O poder detido pelo político e a subjugação deste a grupos económicos — Expectativa de vida de um política numa democracia representativa — Expectativa de vida de um político num regime totalitário — A influência da qualidade de vida de ex-políticos para a corrupção dos políticos juniores —
É frequente ouvir opiniões relativamente à falta de entrega dos agentes políticos, seja por fazerem promessas que depois não são cumpridas, por não deixarem as populações decidirem via referendo sobre questões relevantes, por se subjugarem a entidades privadas com intenções duvidosas ou ainda por conseguirem empregos na vida pós-política que levantam suspeitas sobre favorecimentos durante a vida política.
Estes dois últimos pontos são fulcrais. A subjugação do poder político ao poder económico privado é uma característica de algumas democracias representativas. Um político que é acusado de servir um grande grupo económico defende-se afirmando que não ganha nada em fazer isso (para além da indignação por ser alvo de tal injúria).
O que ganha um agente político que prescinde de poder em prol de uma entidade económica? À partida é estranho considerar que alguém numa posição de governo/legislação vá agir em detrimento da sociedade. Da mesma forma que na vida, a morte é certa; na democracia o fim da vida política é certo. Para tal basta perder eleições. Mesmo na vida interna de um partido, a prospectiva de sucessivamente atingir posições de topo é limitada, bem como de assegurar ad eternum um assento parlamentar.
Assim sendo, na eventualidade de a vida política terminar, o político quer assegurar-se que tem um futuro depois do hiato profissional que a vida na política pode representar. Isto leva a que o político precise de encontrar alternativas durante a fase em que tem mais poder, i.e., enquanto está politicamente activo. Acresce também a necessidade de manter um nível de vida coincidente com o status quo que este percepcionou ter nos seus momentos áureos. Esta é uma hipótese para explicar parte da corrupção que é característica de democracias representativas. Tal não invalida, no entanto, que a liberdade de imprensa tenha como consequência uma maior visibilidade sobre casos de corrupção, a qual é menos expectável de existir em regimes totalitários.
Comparemos agora a hipótese apresentada com a acção de agentes políticos num regime totalitário. Nestes regimes, existe um esforço para esconder casos de corrupção com a intenção de minimizar os escândalos. A intenção é fornecer à sociedade uma imagem de tranquilidade e superioridade desta, em relação à sociedade que hipoteticamente existiria sob qualquer outro regime (democrático ou não). No entanto existe um pormenor relativamente à vida política de um governante/legislador. Num regime totalitário este não sofre de grande preocupação com a vida pós-política. Estando a opinião popular controlada (via a manipulação de actos eleitorais ou a ausência destes), a morte política é practicamente inexistente, ou vendo de outro prisma, mais facilmente coincide com a morte física. Enunciando algumas das razões que conduzem fim da vida política: (i) o político opta por reformar-se, provavelmente obtendo uma pensão vitalícia; (ii) o político é afastado devido a um golpe palaciano, provavelmente obtendo uma posição menor no estado, a reforma, prisão, o exílio ou a morte; (iii) o político é afastado devido a uma revolução, cujas consequências coincidem com as do golpe palaciano; (iv) o político morre devido a um atentado ou por causas naturais.
Considerando os vários cenários, num regime totalitário o político não sofre necessidade de prescindir de poder em prol de um grupo económico porque a sua vida política é bastante mais estável, havendo uma garantia relativamente à sua continuação (mesmo que fictícia). Isto não significa que a corrupção seja inexistente. Continua a ser expectável que existam concessões a poderes económicos, feitas em detrimento da cidadão comum. É importante considerar a diferença entre concessão e subjugação. Da perspectiva do agente político num regime totalitário, convêm que o estado seja forte perante qualquer grupo económico e que o poder seja detido por este. Qualquer concessão que não seja no interesse da sociedade é feita pelo político no sentido de enriquecer e melhorar o seu nível de vida, mas sem intenção de futuramente mudar de emprego. Consequentemente não existe subjugação de poder por parte do político. Se hipoteticamente tal acontecesse, i.e., se o político se subjugasse a um grupo económico, poderia ser o suficiente para ditar o fim da sua vida política, havendo uma incerteza grande sobre se o grupo económico poderia atraiçoar o ex-político, tendo este perdido o poder. Resumindo, numa situação de estabilidade da posição detida pelo político, é expectável que este prefira um estado forte para minimizar uma eventual perda de poder. Tal implica que mesmo existindo concessões feitas a grupos económicos, estes estejam subjugados ao poder do estado.
Uma última opinião. Seja o regime democrático ou totalitário, a existência de acordos de cavalheiros entre políticos e grupos económicos baseia-se na premissa que os políticos juniores não vão subjugar-se se não houver confiança que o grupo económico vai, de facto, suportar a vida pós-política. Esta confiança existe quando o político júnior vê que o ex-político sénior está em boas mãos. Num regime totalitário esta traição é mais fácil porque podem não existir políticos juniores passiveis de serem impressionados. Esta ideia constituí uma hipótese para que o acordo de cavalheiros entre agentes políticos e grupos económicos não seja posteriormente traído (alternativamente, o político pode munir-se de informação sensível para forçar o bom termo do acordo feito com o grupo económico). Caso se verifique a existência deste tipo de ligações (políticos juniores, seniores e grupos económicos), esta ideia pode ser utilizada para combater este tipo de corrupção: minimizando a capacidade dos grupos económicos sustentarem ex-políticos, destrói-se a confiança dos políticos juniores nesses mesmos grupos, dificultando este tipo de acordos e transição.
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