O ser humano tem uma tendência natural para categorizar, com o propósito de optimizar a organização de informação (alguns, pelo menos). Este acto reducionista, de comprimir informação complexa em categorias simples, pode ser generalizado no que Nassim Taleb define como platonização:
What I call Platonicity, after the ideas (and personality) of the philosopher Plato, is our tendency to mistake the map for the territory, to focus on pure and well-defined “forms”, whether objects, like triangles, or social notions, like utopias (...) When these ideas and crisp constructs inhabit our minds, we privilege them over other less elegant objects, those with messier and less tractable structures (...) Platonicity is what makes us think that we understand more than we actually do.Nassim Taleb, The Black Swan, 2007
Duas consequências directas da platonização são: (i) a incapacidade em representar algo que não se encaixe nas categorias estabelecidas; (ii) a eliminação de sub-categorias redundando na generalização, podendo conduzir ao preconceito.
Agora, qual o propósito deste texto (com todas as incorrecções nele contidas)? Vejamos o caso do bipartidarismo. À imagem de outros países, Portugal encaixa num padrão onde a governação acaba por ser ditada por dois partidos, PS e PSD (nada de novo). Ora, a platonização surge como uma hipótese para explicar este fenómeno: de uma amalgama complexa de ideais surgem categorias. Os próprios partidos políticos são o resultado dessas categorias. Mesmo que exista um hipotético partido que aglomere características de vários ideais, mesmo que díspares, será eventualmente rotulado por forma a encaixar no eixo esquerda-direita.
Nesta perspectiva o bipartidarismo é meramente uma platonização secundária aplicada à platonização primária. Para simplificar, ao acto de estabelecer platonizações sucessivas vou denominar de super-platonização. É mais fácil para o cidadão aglomerar a amalgama de ideais já categorizados e simplificar em dois conceitos: a esquerda e a direita. De seguida só falta escolher os candidatos que, fraccionando a meio, aglomeram mais peso de um lado ou do outro.
Acontece o mesmo se se colocar uma pergunta do estilo ‘O café está quente?’. Uma resposta de sim ou não, por mais subjectiva que possa ser, é geralmente mais bem recebida que uma resposta como ‘não está a escaldar porque não queima, mas ainda está quente’. As respostas dicotómicas (sim/não) claramente ganham pela compressão da informação (por mais inexactas ou inúteis que sejam). Respostas mais elaboradas podem fornecer uma representação melhor da realidade mas são descartadas, pois requerem maior trabalho e raciocínio por parte do receptor.
Finalizando, face à super-platonização da política acabam por surgir dois partidos que, num determinado período temporal e contexto, representam o eixo esquerda-direita. Outra vantagem da super-platonização é a de diluir os ideais originais, i.e., em vez de pensar nos ideais dos dois partidos principais, pode-se referir a eles directamente pelo seu nome (PS e PSD). Qual a consequência disto a longo prazo? Tornam-se dispensáveis raciocínios exaustivos de re-categorização (no caso de um partido deixar de representar um dos lados), invertendo os papéis: agora são os dois partidos representantes quem estabelece a esquerda e direita, ao invés dos ideais que de facto representam.
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